quinta-feira, 17 de maio de 2012

É meu!

É meu!


Era uma vez um rei poderoso que conduzia o seu exército pelas montanhas nevadas das fronteiras de seu reino, disposto a invadir as terras de seu vizinho. Sobre uma das montanhas encontrou um eremita sentado num platô. Ele tinha  a cabeça entre os joelhos para protegê-la do vento  gélido que soprava entre os picos nevados.  Estava completamente nu. O rei apiedado estendeu-lhe seu casaco.
(O Eremita era asceta que tinha completo domínio  sobre seus sentidos e sensações).  Ele recusa agradecido à oferta dizendo:  
“Deus deu-me  vestimenta necessária para proteger-me do frio e do calor.  Ele dá-me tudo que necessito.”
Admirado o rei então lhe perguntou onde estavam suas vestes. Ao que ele respondeu:
“Deus próprio as teceu para mim. Eu a tenho desde meu nascimento e conservarei até a morte. Veja: é minha pele.  Dê seu casado a algum viajante necessitado ou a um pobre.”
O rei sorriu compadecido. Quem poderia ser  mais pobre que aquele ali?  E  indagou-o:
“Há algum pobre nas proximidades? Onde posso encontrá-lo?”
O eremita quis então saber para onde ele se dirigia e com que propósito.  E o rei contou:
“Dirijo-me ao território de meu inimigo, para conquistar suas terras e ampliar meus domínios.”
O eremita sorriu por sua vez e disse-lhe:
“Se não estás satisfeito com teu Reino, e estás ainda disposto a sacrificar a tua vida e de milhares de homens somente para conquistar alguns metros quadrados de terras, és em verdade mais  pobre que eu. Então fique  com teu casaco, pois tu necessitas dele mais urgentemente do que eu.”
O rei se envergonhou e percebeu como a glória e o supérfluo são  ilusórios. Voltou para seu reino, grato ao Eremita que abriu seus olhos para sua pobreza interior.




Filosofia da posse 








                                              um fiozinho da meada...





Em estado de natureza, os indivíduos vivem isolados pelas florestas, sobrevivendo com o que a Natureza lhes dá, desconhecendo lutas e comunicando-se pelo gesto, pelo grito e pelo canto, numa língua generosa e benevolente. Esse estado de felicidade original, no qual os humanos existem sob a forma do bom selvagem inocente, termina quando alguém cerca um terreno e diz: 
"É meu”.


A divisão entre o meu e o teu, isto é, a propriedade privada, dá origem ao estado de sociedade, que corresponde, agora, ao estado de natureza hobbesiano da guerra de todos contra todos.  Rousseau (no século XVIII) - Do livro: Filosofia - Marilena Chauí 




Foto: internet



Deus - escreve Locke - é um artífice, um obreiro, um arquiteto e engenheiro que fez uma obra: o

mundo. Este, como obra do trabalhador divino, a ele pertence. É seu domínio e sua propriedade. 

Deus criou o homem à sua imagem e semelhança, deu-lhe o mundo para que nele reinasse e, ao 

expulsá-lo do Paraíso, não lhe retirou o domínio do mundo, mas lhe disse que o teria com o suor de 

seu rosto. Por todos esses motivos, Deus instituiu, no momento da criação do mundo e do homem, 

o direito à propriedade privada como fruto legítimo do trabalho. Por isso, de origem divina, ela é um

direito natural.  Do livro: Filosofia - Marilena Chauí 




Psicologia da posse


Imagem internet

A criança já nasce carente e exigindo atenção em tempo integral dos pais. Como isso é impossível, crescem com certa carência, que fica como um débito emocional que será cobrado.
Cobrança que aparece quando a pessoa sai em busca de alguém sem perceber que um fator motivador é a procura de zerar aquela dívida, a carência. Sem o saber está repetindo a mesma peça que viveu na infância.


Baseado em pensamentos como: “irá me satisfazer de amor”, “você me pertence”, “seu corpo é de uso exclusivo meu”, “você tem que me dar prazer na hora que eu quiser”, “toda a sua atenção tem que ser só minha”, “não permitirei que me traia como meus pais o fizeram”.
As pessoas se enganam que isso é amor, porque ninguém é tão distante do amor quanto o ciumento. Para ele o outro é um objeto a ser possuído e manipulado, como uma criança faz com seu brinquedo preferido.
Interessante como o sentimento de posse esteve o tempo todo tão relacionado ao ciúme nessa minha busca.
Mas como para todos os papéis existe um papel complementar, um possessivo e o outro que se deixa manipular.
Imaginando um cenário infernal. Pois vai arder na cabeça do ciumento e na vida do manipulado: “com quem você saiu?”, “que horas chegou?”, “quem estava ao telefone?”, “que perfume é esse?” ou “quem é?”, usando tons intimidatórios, ameaçadores ou chantagem.
Em quase todos os relacionamentos existe a idéia de posse sobre a pessoa amada. É possível que surja daí a fantasia da fidelidade, que é uma "espécie de acordo" mutuo, com objetivo de sentirem-se amados com exclusividade. Este sentimento de posse desencadeia uma série de comportamentos que acabam afastando o casal.
Voltando ao ciúme que apareceu inúmeras vezes, ele nunca aparece sozinho. Surge sempre acompanhado por medo, insegurança e dúvida.
Ë comum constatar entre os ciumentos o forte sentimento de posse. Quando se chega a este ponto é fácil o ciumento ver ameaças em todo o lado, num telefonema, num bilhete, num pequeno atraso...
O possessivo se sente perseguido, ameaçado em seu território, em seu “poder”, falta confiança em si mesmo e não no outro!
Um outro aspecto significativo é que temos uma sociedade capitalista, que privilegia o sentimento de posse. O contrato de casamento parece constituir antes um contrato de compra e venda, e voltamos aos aspectos citados no início dessa reflexão sobre o que diz as leis. Estamos nós falando de um objeto?
O discurso social é seletivo, coibi e pune: homem pode x mulher não pode ou coisa de homem x coisa de mulher, incluindo-se neste universo os sentimentos e as emoções. Portanto, os papéis sociais reforçam e impõem os papéis sexuais, reforçando o sentimento de posse e de poder nas relações de gênero.
Partindo desse pressuposto, compreendemos o papel da violência contra as mulheres num contexto de poder; o ato violento é na maioria das vezes, muito mais uma expressão de poder que de força.
Márcia Homem de Mello






“O Homem é a sua alma”


“...Na verdade, não é outra coisa o que faço nestas minhas andanças a não ser persuadir a vós, jovens e velhos, de que não deveis cuidar só do corpo, nem exclusivamente das riquezas, e nem de qualquer outra coisa antes e mais fortemente que da alma, de modo que ela se aperfeiçoe sempre, pois não é do acúmulo de riquezas das quais nasce a virtude, mas do aperfeiçoamento da alma é que nascem as riquezas e tudo o que mais importa ao homem e ao Estado." Sócrates



Nada que é visível, concreto ou palpável me pertence. Está comigo, circunstancialmente. O que me 

pertence é invisível aos olhos do homem e ninguém me tira. É o que penso, o que sinto, o que sou. 

Isto sim, e nada mais.

Maria Célia











13 comentários:

  1. Grande verdade!
    Nos iludimos tanto com isso!
    Enchemos a boca para dizer: é meu!
    Bobagem!
    O que é meu levarei comigo depois de partir...e só...

    Bjs Maria!

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    1. Sheila,
      São tantas as verdades e tantas as ilusões, ou mentiras. Estes dois oponentes, sempre presentes em nossas escolhas e decisões.
      Saudade de você.
      Beijocas,
      Maria Célia

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  2. Sim pura realidade pois para aonde vamos não precisamos levar nada...
    Beijo Lisette.

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    1. Querida Lisette,
      É a única e longa viagem que faremos sem mala.
      Beijo,
      Maria Célia

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  3. Amei o trecho de o homem e sua alma.
    Amei o post.

    Amo suas reflexões, suas visitas, comentários, carinho.

    Sem posses, sem materialismo, sem apego.
    Paz, bons sentimentos e boas ações.

    Chuvinha de estrelas :)

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    1. Tim-Tina,
      Melhorou?
      Obrigada por tudo e muita chuvinha de água benta.
      Beijocas e um buquê de flor de laranjeira para perfumar e enfeitar seu fim de semana,
      Maria Célia

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  4. Querida amigona,
    Que espetáculo!
    Sua postagem vale umas dez sessões de psicoterapia!
    Muito obrigada.
    Desejo a você um doce final de semana.
    Beijos.

    PS. Aqui está um frio terrível!
    Estou usando aquele "nosso" poncho azul mas estou virando "boneca de neve".

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    1. Querida amiga,
      Ontem, coincidentemente, vesti meu poncho azul e pensei muito em você. Transmissão de vontade e de ação.
      Quanto à postagem, que bom ter gostado.
      Meu computador ficou com problemas desde o dia da postagem. A impressora queimou e, ao instalar a nova, o técnico desconfigurou tudo.
      Por isso, eu não conseguia fazer nenhum comentário nos blogs e nem responder aos meus.
      Agora, depois disso e do resfriado, vou retomar as atividades habituais.
      Obrigada e bom fim de semana na serrinha.
      Beijocas,
      Maria Célia

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  5. Oi querida! muito interessante sua postagem em que vc aborda

    "Psicologia da posse"

    Eu sei bem como é isso, e acredito plenamente que tudo que vivemos na infância refletirá na nossa vida adulta. Inclusive esse sentimento de posse, que nada mais é que o medo de perder. E a possibilidade de mais uma perda a pessoa acaba se tornando uma pessoa possessiva...E cada um tem formas diferentes de lidar com esse sentimento.

    Obrigada pelo convite pra tomar um café rs, um dia irei.
    bjs

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    1. Desculpa! pra tomar um cházinho e não café rs.
      bjs

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  6. Ter ou ser?
    Amiga querida!
    Você arrasa com cada post.
    Tudo combina tão perfeitamente - imagens e texto.
    E, como já disse, o tema da postagem é trabalhado minuciosamente.

    Flor, obrigada pelo que disse lá no castelo.
    Nem sabes minha felicidade!
    Obrigada! Para mim é precioso demais.

    Deixo um carinho espalhadinho por aqui... Beijo da Ila!

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    1. Ila, querida
      Como você, faço para vocês. E, quando fazemos para o nosso próximo, tudo fica melhor do que esperávamos. Acho que os "lá de cima" ajudam.
      Eu é que agradeço. O carinho está plantadinho aqui para eu regar.
      Luz e sol!

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